1.8.09

Tenho 39 anos, sou assistente de bordo na TAP e a minha esteticista diz-me que eu necessito de fazer um peeling facial para rejuvenescer a minha face. Em que consite esse peeling exactamente?

 

O termo “peeling” foi adoptado da língua inglesa, cuja tradução directa apenas faz referência à descamação da pele após a realização de um tratamento local específico. Neste sentido é preferido o uso do termo “dermabrasão química” que o distingue da dermabrasão convencional (física) ou da laserabrasão, todos dirigidos à renovação e reorganização das células cutâneas e à estimulação da produção de inúmeras fibras e moléculas (fibras elásticas, colagénio, proteínas da derme, etc.) que conferem uma melhoria global do aspecto e textura da pele.
Muitos são os possíveis agentes a utilizar na realização de um “peeling” facial, dependendo do tipo de objectivo desejado e da experiência de quem o executa sendo que, em termos práticos, os peeling’s mais usados são aqueles que fazem uso de um número relativamente restrito de produtos.
Conforme estejamos em face de um envelhecimento cutêneo ligeiro, moderado ou acentuado, de cicatrizes de acne mais ou menos pronunciadas ou de manchas cutâneas com pigmentação mais ou menos profunda, assim escolheremos o tipo de “peeling” mais apropriado, ou seja, mais ou menos profundo. Estes recorrem a diversas concentrações dos princípios activos, a diferentes tempos de aplicação assim como a vários tipos de associações entre eles.
A esmagadora maioria dos “peeling’s” são procedimentos de realização em ambulatório e com fraca afectação da vida pessoal e social de quem o faz, não devendo ser confundidos com os casos particulares de algumas figuras públicas que a eles se submetem e referidos como terapêuticas agressivas podendo justificar, inclusivamente, o internamento hospitalar.
De uma forma global os peeling’s podem ser divididos em 3 tipos: os superficiais, os médios e os profundos, com tempos de recuperação da pele crescente respectivamente. Em ambulatório apenas se realizam os 2 primeiros tipos e constituem a quase totalidade destes procedimentos. As moléculas mais usadas são os denominados ácidos α-hidroxi (ác. glicólico, láctico, mandélico, …), os ácidos β-hidroxi (ác. salicílico), o ácido tricloroacético (TCA 20 a 50%), os retinóides tópicos (tretinoína), o fenol e associações destes anteriores.
Em geral, dado que as soluções utilizadas fazem recurso a alguns tipos de ácidos, existe uma sensação de ardor após a sua aplicação que cede progressivamente sobretudo quando é realizado a neutralização (tamponamento) com outras soluções ou água. Consoante o tipo de profundidade desejado pode ser aparente um esbranquiçar da pele tratada (“freezing”) que traduz a coagulação mais ou menos intensa das proteínas cutâneas. Se houver que recorrer a um” peeling” médio pode existir alguma exsudação cutânea durante 1-2 dias que é facilmente controlada pela aplicação de ácido acético (vinagre) muito diluído. Algumas crostas superficiais podem formar-se e, geralmente, destacam-se no espaço de alguns dias mantendo a pele tratada um aspecto rosado durante escassas semanas facilmente camuflado com aplicação de uma base.
Os resultados obtidos dependem da situação clínica a tratar, mas são habitualmente muito gratificantes tendo em conta a pouca agressividade dos tratamentos. Nalgumas situações será necessária a realização de mais do que uma sessão para obtenção do resultado desejado e uma manutenção em períodos semestrais ou anuais pode ser aconselhada dependendo, uma vez mais, da situação clínica e do tipo de “peeling” utilizado.
O reconhecimento da eficácia e facilidade de execução destes peeling’s faciais levou as grandes casas de cosmética a lançar no mercado, estes últimos anos, um número elevado de kit’s para realização de peeling’s caseiros regulares e de manutenção com concentrações mais baixas dos princípios activos.
Em mãos experientes as complicações destes tratamentos são raras e tendem a ser mínimas e facilmente corrigíveis. As infecções locais são raras mas perante uma história de episódios de herpes de localização facial deve ser sempre feita a prevenção com um anti-viral durante cerca de 1 semana. A formação de pequenos grãos de milia (retenção) pode ocorrer e é de fácil resolução. A acentuação da pigmentação ou despigmentação parcial dos locais tratados pode também ocorrer sobretudo em pessoas mais morenas assim como o desenvolvimento de cicatrizes hipertróficas.
Sendo uma mais valia importante em dermocosmética na melhoria da qualidade de vida geral, o peeling (associado ou não a outras técnicas como o laser) é uma técnica que pela sua complexidade a nível da formulação e da técnica de aplicação, de cuidados subsequentes e de eventual prevenção e resolução de problemas associados deve sempre ser realizada por mãos experientes, sendo neste caso um método rápido, pouco agressivo, financeiramente acessível e gratificante para a resolução cosmética de um sem número importante de situações.
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Neste espaço vocacionado para a Dermatologia e a Dermocosmetologia tentarão ser dadas respostas tão esclarecedoras quanto possível a dúvidas sobre doenças de pele ou alternativas terapêuticas nesta área, sempre e quando forem objectivas e se enquadrem neste âmbito, não funcionando como ferramenta de diagnóstico ou sugestão terapêutica específica em cada caso individual que, na esmagadora maioria das situações, carecem de uma avaliação pessoal.

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Dr. Miguel Trincheiras


Licenciado em Medicina pela Universidade de Liège- Bélgica.
Especialista em Dermatologia e Venereologia pelos Hospitais Civis de Lisboa (H. Desterro) com o título de Assistente Graduado, tendo sido director do Serviço de Dermatologia do Hospital Reynaldo dos Santos até 2006.
Membro de várias sociedades nacionais e internacionais de Dermatologia e Dermocosmetologia.
Dedica actualmente a sua actividade clínica, no regime de medicina privada, em grande parte à Dermatologia Cirúrgica, Lasers e Dermocosmetologia entre Lisboa e em Espanha.



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